Sua obra

Pensamentos Estéticos

Ao ser indagado sobre o significado do “Monumento ao Interceptor Oceânico”, Sérvulo Esmeraldo respondeu que se tratava de um gesto.

A concisão, traço marcante da obra, define também seu autor. Um dos artistas cinéticos de maior projeção da arte brasileira, Esmeraldo depois de uma trajetória de 22 anos na França, retornou ao Ceará decidido a executar o projeto que colocou Fortaleza na rota da escultura pública contemporânea.

A luminosidade local e o clima de verão constante da capital imantaram o artista da linha, da luz e do movimento, que passou do plano à ação.

De 1978 até o final de sua vida, Sérvulo Esmeraldo imprimiu a sua marca inconfundível num conjunto plural, diverso e original de esculturas a céu aberto. Somente em Fortaleza são mais de 30 obras que desafiam a gravidade, que trabalham com a água e o vento, que são solidárias à luz do sol. Importante dizer que o conjunto era bem maior. Obras importantes
desapareceram misteriosamente da paisagem. Mas, como dizia o autor: “A obra pode desaparecer, mas a memória é eterna.

Artista de múltiplas linguagens, Esmeraldo também nos deixou uma obra gravada de grande relevância, trabalhada em todas as disciplinas da estampa e do intaglio, além de desenhos, pinturas, objetos, joias, projetos gráficos, livros de artista e excitáveis (quadros e objetos cinéticos movido pela eletricidade estática).

Pensar é simplificar. A alegria inerente à obra faz parte do momento da criação e execução. – Sérvulo Esmeraldo

Esculturas Públicas

Tornar-me um escultor de grandes obras não estava no meu plano profissional. Se bem que eu já fazia projetos de escultura. Coisas pequenas. Com o passar do tempo, a escultura ficou constante e me absorveu completamente. Quando se faz uma escultura, tem-se que pensar sobretudo no espaço que ela vai ocupar. E até na vizinhança, nos arredores. A escultura de grande porte requer um espaço mais amplo porque ela dinamiza todo o seu entorno. O espaço é de alguma forma determinante, a escultura torna-se também
consequência desse espaço. A vontade de fazer esculturas grandes veio do desejo não só de ocupar o espaço urbano, mas de interagir com ele, de torná- lo mais dinâmico.

A obra em espaço público é uma forma de democratizar a arte. Uma sala de exposição em galerias e museus às vezes impõe limites e inibe a participação do público. A arte pública não. Ela está posta, à disposição, ao alcance de todos para olhar, tocar, sentir, interagir. No nosso clima, ela tem mais uma qualidade: ela se modifica segundo o horário que está sendo observada. Daí meu desejo de fazer mais arte para a rua. Justamente por isso, porque é uma arte democrática. Como uma associação de formas, é uma maneira de
desenvolver um gesto.

Há uma familiaridade entre certas formas, certas cores, certas matérias. Sobretudo na escultura, pois, segundo a matéria, a vibração da luz é uma ou é outra. Se no mármore a luz põe em destaque certos aspectos, no ferro evidenciam-se outros efeitos, outros detalhes. Eu acho que o trabalho de um escultor começa muito cedo. A partir do momento que você passa a reunir as formas, as cores que lhe interessam. Esse processo pode ser iniciado quando você é ainda criança e educa seu modo de ver, um modo que lhe é peculiar, tanto que certas pessoas não veem o que você está vendo. Então existe um certo olhar, uma maneira de ver, de captar, e aquilo vai para um bloco de memória. Você vai acumulando aquelas informações e fazendo a seleção do que lhe interessa.

Quando eu estou trabalhando numa obra eu não penso no imediato, mas no futuro que ela terá. Eu trabalho em função de deixá-la estruturadamente exata, precisa. Então, eu tenho que trabalhar tecnicamente com esse conceito, para que ela venha a ter permanência.